Fonte: RS Revide Saúde

O vazio existencial é frequentemente associado à infelicidade por ser algo desagradável de se sentir. Esse vazio, no entanto, pode ser entendido como algo necessário, um combustível intrínseco à  natureza da mente humana.

“Ele contém também a esperança, a ansiedade por algo novo que venha nos preencher, que venha dar significado ao que vivemos”, avalia a psicoterapeuta de orientação psicanalítica Maria Angela Siena Weidle. Segundo a profissional, todos nascem com enorme curiosidade e potencial para o conhecimento, para buscar sentidos para seu mundo interno e externo. O ser humano nasce profundamente ligado ao prazer e a frustração causa dor e medo, porém, a capacidade de pensar se desenvolve como uma maneira de lidar com isso.

No início da vida, o bebê necessita de cuidados constantes e contínuos para sobreviver e se desenvolver. Tudo é só um mundo de sensações e de impressões. O afeto e cuidados recebidos alimentam o desenvolvimento do pensamento. O sentido da vida, inicialmente, é oferecido pela mãe, pelo pai, pela família, pela escola e pelos amigos.  No decorrer da existência, no entanto, esse sentido é perdido e reencontrado infinitas vezes. “Ouvi muito em meu trabalho: minha vida não tem sentido.

O que faço?” Se o indivíduo não passar pelo processo natural de frustração, não se desenvolverá de forma saudável e poderá ter uma série de problemas, desde sintomas depressivos, de ansiedade, transtornos de personalidade, de humor, dependência química, etc. O aumento nos casos de depressão e transtornos de ansiedade revela que a infelicidade, no que se refere a perda de sentido, a perda da profundidade e da identidade, requer atenção e cuidado”, explica a psicóloga.

Nas últimas décadas, segundo Maria Angela, esse vazio existencial necessário foi sendo substituído com a globalização, a  mídia, a fusão de culturas, a mudança de valores e a luta por um lugar em um mundo que muda muito rápido. “É mágico e ao mesmo tempo assustador. A oferta de “paraísos artificiais” cresceu tanto que a vida cotidiana pode parecer entediante”, salienta.  Como aponta a profissional, o mundo virtual tornou-se muito atraente e cheio de possibilidades, fugas e armadilhas; as redes sociais passaram a ocupar uma parte cada vez maior na vida do indivíduo e o “consumo pelo consumo” foi tomando o lugar de outros valores, ou seja, o vazio existencial foi sendo substituído pelo vazio da superficialidade. Ter ou aparentar passou a ser mais importante do que ser, como analisa Zygmund Baulman em sua obra ‘A Modernidade Líquida’. “O vazio individual, que pode levar ao pensamento, foi sendo substituído, progressivamente, pelo vazio de sentido algum. É fácil imaginar o reflexo disso nos indivíduos desde a infância”, pontua Maria Angela.

Para a psicóloga, a solução está na qualidade da educação, que pode desenvolver a capacidade crítica, estimular a criatividade, as habilidades artísticas, as esportivas e a autoestima. A busca pelo conhecimento possibilita o surgimento de um pensamento livre, saudável e voltado à construção de um mundo mais feliz e repleto de significados.